sábado, 29 de março de 2008
Casos e acasos - Capítulo IV
Era apaixonado por um certo tipo de mulher específica, as grandes. As mulheres grandes lhe causavam um frisson, mas não era qualquer mulher grande e sim as de pernas torneadas, e seios fartos. Num primeiro momento isso era importantíssimo, logo após vinham o segundo passo, mãos e pés bem cuidados. Carlos era da teoria que uma mulher que cuida bem das mãos e dos pés cuida bem de si. Fato.
Lembrara de um dia em seu escritório em que estavam todos a falar no horário de almoço, nelas. Sempre o maldito assunto que não sai do pensamento e das bocas dos homens. Mulheres. Lembrou-se quando um colega seu disse:
- Boa são as compactas! Não tem mulé melhor que essas!
Todos riram e um outro lá falou:
- Bom mesmo é mulher, não importa se é compacta ou não, o importante é ser mulher!
Estavam todos gargalhando ainda quando Carlos surgiu por trás de todos, com o dedo em riste, proferindo:
- Absurdo, não se tratam às mulheres assim. Mulher não é mulher e ponto. Mulher tem toda uma magia por trás do ser mulher.
Carlos profetizava aquilo como se o sentisse. O que deixou os colegas de escritório um tanto desconfiados, mas continuou:
- Eu sou um apaixonado pelo ser mulher. Não ser de estado, ser de ser, existir. Aah! Vocês entenderam. Eu gosto daquelas grandes, com coxas torneadas e seios empinados, mas tem um porém. Ela tem que cuidar bem das mãos e dos pés, sendo assim. É per-fei-ta!
Carlos enfatizou na separação silábica da perfeita. Todos ficaram surpresos com aquele surto de defensor feminista que Carlos havia cometido. Sim, pois ele sequer falava sobre a sua esposa. Estava agora demonstrando todo seu lado neandertal e primitivo de homem. Um lado que todo homem que é homem tem aflorado desde os primeiros anos de idade quando a mãe leva o filhinho nas festas e mostra pras amigas:
- Filhiiiinho! Onde está o piu-piu?
E a criança aponta para seu órgão como se fosse uma relíquia. E passa a vida achando que aquilo é normal, que ter um piu-piu e mostrar a todos a sua relíquia, é algo que tem de ser feito.
Então, Carlos parou por alguns segundos e suspirou logo após:
- Apesar de que aquela compacta. Ah! Aquela eu trocaria por qualquer mulher no mundo.
Lembrou-se então, da única vez na vida pós-casamento que havia saído só, sem a companhia da excelentíssima. Foram ele e seu amigo de infância a uma festa, na casa de um ex-colega de faculdade. Um que morava na cidade baixa. Tinha trinta e um anos, e vivia uma vida adolescente. Fazia festa de terça a domingo, e alimentava-se de paixões rápidas e de sexo casual. Conhecia a garota naquela noite, apaixonava-se e terminava acordando no outro dia com uma desconhecida ao seu lado na cama.
Carlos foi à festa, relutante, mas foi. Estava mesmo precisando sair, esfriar a cabeça. Suas gêmeas haviam nascido há pouco. Não dormia direito. Não tinha mais vida social alguma. Então ligou para esposa e disse que ia para casa de Edu tomar algumas cervejas e se divertir jogando dominó ou algum esporte desses chatos os quais mulheres não se interessariam, nem agüentariam ver uma partida sequer, e foi a festa.
Chegando lá estava encabulado, mas foi soltando-se aos poucos. Bebericava algo aqui, outro algo acolá, e quando percebeu estava se sentindo outra pessoa. Queria sair da rotina, apaixonar-se uma vez só na vida por uma noite. Fazer sexo casual. Mas trairia sua amada esposa, a qual tinha certeza que nunca fez nada pra ele. Mas ele precisava daquilo, tinha que fazer. Precisava sentir o gosto da tentação. Foi quando ele a viu. Ali parada no canto, com um copo de cerveja na mão, cabelos na altura dos ombros, ondulados, olhos esverdeados, e cheiro de maçã do amor. Não podia acreditar no que estava vendo, aquela mulher. Compacta. Pequeníssima. Arrancando suspiros dele, o idolatrador das voluptuosas.
Aproximou-se, e começou uma conversa simpática. Ela estava com mais umas amigas conversando numa rodinha, como fazem as mulheres sempre.
- Olá. Tudo bem?
- Aham.
Aham. Aquilo não era um bom sinal, quando as coisas começam apenas com um aham, tendem a não dar certo. Pensou que não conseguiria nada, pois estava enferrujado nesse assunto de conversar com outras mulheres, mas seguiu em frente.
- Então. Conheces o Pedro de onde?
- Ele trabalhou comigo durante algum tempo.
- Pô, bacana. Quer mais uma ceva? Eu vou ali buscar uma pra mim.
- Claro. Por que não.
Carlos foi até a geladeira pegou as cervejas e ao se virar encontra Pedro.
- E aí cara! Como ta a fessta pra txi?
O nível de embriagues de Pedro estava em um grau muito alto já, então Carlos disse apenas, legal.
Voltou para a rodinha, deu a cerveja para a garota. Afinal qual o nome dela? Como foi estúpido esqueceu de se apresentar.
- Bom, aqui está sua cerveja!
- Obrigada.
- Desculpa. Não me apresentei. Carlos.
- Prazer. Amália.
Amália. Aquele nome soou como sinos bimbalhantes no natal. Amália.
Carlos então investiu muito naquela moça, mas muito mesmo. Mas naquela noite saiu da festa apenas com o telefone dela, o nome, e provavelmente uma ressaca horrível no outro dia. Mas não desistiria dela, só trairia sua esposa com uma mulher. E essa mulher era Amália.
Será que Carlos ligou para ela? Como foi seu dia pós-festa? Teria Amália gostado de Carlos? No próximo e imperdível. Casos e acasos.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Casos e acasos - III
Carlos era considerado uma pessoa acima da média social, era bonito, tinha um biótipo forte, olhos verde-mel e certo potencial monetário. Vivia em um bairro nobre de Porto Alegre com sua esposa e duas filhas, e levava uma vida tranqüila até aquele dia.
Naquela manhã foi ao escritório como de costume, Carlos era um grande analista financeiro reconhecido pelos maiores empresários e apostadores do estado. Fez o rotineiro, acordou, tomou café, levou as filhas à escola e foi rumo à Avenida Ipiranga, onde se localizava seu modesto escritório.
- Bom dia, Astolfo!
Astolfo era o porteiro de seu prédio.
- Bom dia Seu Carlos.
Carlos chama o elevador enquanto Astolfo chama sua atenção.
- Tem um homem esperando o senhor aí. O senhor sabe muito bem que eu não deixo ninguém passar, mas ele disse que era muito urgente e me convenceu.
- Um homem? Tudo bem Astolfo, tudo bem. Eu resolvo isso.
O elevador chega. Carlos entra indica o seu andar, e parte pensativo.
- Quem seria este homem? Será alguém da polícia Federal? Será algo importante? Pode ser aquele meu primo que mora longe e vem a cada ano pedir dinheiro, ele sempre conta a mesma história e leva alguns de meus dobrões, humpf! Murmurou Carlos.
O elevador estava chegando à luz indicada, Carlos da mais uma olhada no espelho ajeita a gravata bordo, a camisa impecavelmente branca, alisa as calças engomadas. O elevador chega ao destino e Carlos logo se depara com um homem de barba mal feita, camisa entreaberta até o peito, calça jeans surrada.
Apesar de achar o homem um tanto estranho Carlos inicia cordialmente o diálogo:
- Bom dia, procuras por quem?
Quando queria era muito simpático e correto em suas palavras, podendo mudar rapidamente seu vocabulário e humor conforme a situação exigia, mas aquele dia postou-se inútil diante daquela voz grossa e ameaçadora.
- Eu sei de toda a história, e se não quiser que todas as pessoas dessa tua classezinha nojenta e imponente saibam. Você vai dançar conforme a minha música.
Se um dia quiser fazer com que alguém fique a sua mercê, diga exatamente isso, "Eu sei de tudo", todos têm segredos e todos temem seus segredos, alguns poucos outros muito.
E Carlos se enquadrava no grupo dos que temiam muito, ele guardava algo terrível, que poderia devastar sua vida mais rapidamente que um daqueles furacões americanos que arrastam vacas e tratores como se fosse areia.
- Tudo bem é só dizer o que eu preciso fazer. Qualquer coisa. De quanto tu precisa?
O tom da voz de Carlos era tremulo e desconfiado. Arrogantemente aquele homem, que mais parecia uma mistura de Schwarzenegger com voz de Cid Moreira, respondeu:
- Quanto? Muito mais do que você pode conseguir, por isso não quero dinheiro, existem coisas das qual o dinheiro não pode pagar pela satisfação.
Agora Carlos estava apreensivo de verdade, sentiu que não havia engano algum ali, e que realmente aquele homem sabia de sua história.
- É sobre a sonegação? Eu pago tudo que devo.
- Sonegação? Bem, dessa eu não sabia, mas não vou usá-la.
- Então sobre o que é?!
Nesse momento Carlos começava a ficar com um medo fora do normal, e mal sabia que as coisas ficariam piores a partir daquela revelação.
- É sobre seu filho.
Silêncio...
E agora quem será o filho de Carlos? Quem será o misterioso homem de voz grossa? Poderia ele realmente destruir a vida de Carlos? No próximo Casos e acasos!!!
segunda-feira, 3 de março de 2008
Casos e acasos - Segundo capítulo.
Quando chegou ao templo mor das consagrações jogatinais, havia lá pendurada na porta de metal reluzente uma folha de caderno em letras garrafais:
"Interditado por tempo indeterminado."
As palavras pareciam rimas demoníacas para aqueles olhos esverdeados que começavam a verter água.
- Minha única chance, a única chance, por que? Por que meu Deus? Logo hoje, logo agora, logo comigo.
Sentou-se magistralmente ao meio-fio, com seu vestido curtíssimo cor de sol e ficou lamentando-se, pois a oportunidade de sua vida mudar estava interditada, quem em sã consciência interdita a vida de alguém, isso é abominável, por Deus.
Amália então decidiu levantar-se, montar em sua bicicleta e retornar as vielas sinuosas.
- Olá Dona Carlinha, voltei para buscar o Bernardo.
- Nossa por que demorou tan..., que foi Amália? O que fizeram contigo?
- Nada Dona Carlinha, nada, só interditaram minha vida.
- Como assim, interditaram?
- Eu explico em outro momento, agora só quero descansar.
Descansar era o que Amália mais teria que fazer, ao chegar la estava seu ébrio marido jogado como uma saca de batatas podres no sofá.
Amália o deixou lá junto as suas garrafas de cachaça, e foi dormir com seu filho.
Exatamente às 7:00 o despertador avisava que mais um dia iniciará para Amália. Pôs-se em pé preparou o café para o filho, levou-o a escola e voltou para os afazeres domésticos.
Quando estava estendendo suas roupas uma voz tenra penetrou em seu aparelho auricular, deixando Amália muito, mas muito surpresa.
O que terá dito esta voz? Seria ela alguém com más intenções? Teria ela desferido algo de baixo escalão? O terceiro vem aí!!!