terça-feira, 15 de abril de 2008
Casos e Acasos - V
Talvez se eu não tivesse ligado pra ela aquele dia. Não. Eu fiz o certo. Não é o certo aproveitar todos os momentos de nossa vida como se fosse o último? Então eu fiz certo.
Certa feita Carlos cometeu o maior crime de sua vida. E não foi contra ninguém, foi contra algo. Sua moral. A única coisa que prezava. A ponto de querer suicidar-se como faziam, e até hoje existem os que fazem, os guerreiros japoneses. Cometer o harakiri. Deveria pegar aquela caneta prateada e enfiar no fundo de seu peito até seu último suspiro exalar pelas narinas.
Agora ela saberia de tudo. Estava à mercê de um vigarista qualquer que descobriu seu passado negro. Como podem as pessoas fazer isso com os outros. Iria se tornar um vigarista também. Ah sim iria.
Mas deixaria isso e o harakiri para depois, precisava no momento se concentrar em como consertar a situação, pois estava certo que não tinha vocação para ser vigarista e muito menos coragem de cometer suicídio com uma caneta.
- Alo?!
- A-alo... Quem está falando?
- Com quem tu quer falar?!
Era ele. Aquela voz não enganava. Aquele Cid Moreira com sangue latino. Tentou forçar a voz para que parecesse mais agressivo.
- Aqui é o Carlos. Quero resolver meu assunto contigo.
- Então quer dizer que o passado pesou?
- ... Pois é.
Agora lembrara de toda história e se tornou vulnerável novamente. Malditos vigaristas.
- Então é o seguinte. Amália ganhou na loteria, e ficou sabendo disso há pouco tempo.
- Nossa, que bom. Isso significa que eu não vou precisar pagar pensão.
Não aquela piadinha não fora boa naquela ocasião.
- Olha isso eu não sei, vai te entender com ela. Posso continuar?
- Claro. Claro.
- Eu contei a ela que havia ganhado na loteria há pouco. Mas tem um grande problema. Ela perdeu seu bilhete.
- Bom, mas e o que eu vou fazer nesse caso?
- É simples vai pagar o prêmio a ela.
- COMO ASSIM?! Eu não tenho dinheiro nem para pagar minhas contas. Como pagarei um prêmio de loteria a ela?
- Isso não é problema meu. Quem tem o passado sujo aqui é tu. Te vira.
- Olha aqui seu canalha. Não adianta tu querer...
Tarde de mais. O canalha havia desligado o telefone na sua cara. Carlos ficou praguejando e rogando as mais sujas pragas para aquele infeliz. E agora o que faria? Como resolver aquele assunto? Claro! Iria contar tudo para sua esposa. Assim o canalha ficaria sem saída. Não teria segredo algum. E afinal aquilo fora há tantos anos. Ela entenderia a situação. Ainda mais se tratando de um caso como este.
Chegando em casa, tomou um banho. Abriu uma garrafa de conhaque estocada há muitos anos. Bebericou alguns goles daquele liquido amargo. Carlos não bebia, mas aquela situação o obrigava, precisava relaxar. Ficar mais solto. E então chamou a esposa.
- Querida, venha até aqui um minuto precisamos ter uma conversa.
Ela desceu as escadas enrolada em um chambre vermelho-diabo. Cabelos longos e pretos. Pernas roliças. Não era grande, mas Carlos a venerava como a uma Deusa. Era do tipo de mulher que ele não imaginara casar. Mas que o completava. E como completava.
- O que foi amor? Está com uma carinha tão preocupada.
Passou a mão levemente sobre o rosto de Carlos. E com aquele gesto desmoronou a muralha que Carlos havia construído.
- É, na verdade eu tenho algo para te contar.
Mas como? Como contar aquela malevolência para Claudinha? Contar ou não contar, eis a questão. No próximo casos e acasos.
sábado, 29 de março de 2008
Casos e acasos - Capítulo IV
Era apaixonado por um certo tipo de mulher específica, as grandes. As mulheres grandes lhe causavam um frisson, mas não era qualquer mulher grande e sim as de pernas torneadas, e seios fartos. Num primeiro momento isso era importantíssimo, logo após vinham o segundo passo, mãos e pés bem cuidados. Carlos era da teoria que uma mulher que cuida bem das mãos e dos pés cuida bem de si. Fato.
Lembrara de um dia em seu escritório em que estavam todos a falar no horário de almoço, nelas. Sempre o maldito assunto que não sai do pensamento e das bocas dos homens. Mulheres. Lembrou-se quando um colega seu disse:
- Boa são as compactas! Não tem mulé melhor que essas!
Todos riram e um outro lá falou:
- Bom mesmo é mulher, não importa se é compacta ou não, o importante é ser mulher!
Estavam todos gargalhando ainda quando Carlos surgiu por trás de todos, com o dedo em riste, proferindo:
- Absurdo, não se tratam às mulheres assim. Mulher não é mulher e ponto. Mulher tem toda uma magia por trás do ser mulher.
Carlos profetizava aquilo como se o sentisse. O que deixou os colegas de escritório um tanto desconfiados, mas continuou:
- Eu sou um apaixonado pelo ser mulher. Não ser de estado, ser de ser, existir. Aah! Vocês entenderam. Eu gosto daquelas grandes, com coxas torneadas e seios empinados, mas tem um porém. Ela tem que cuidar bem das mãos e dos pés, sendo assim. É per-fei-ta!
Carlos enfatizou na separação silábica da perfeita. Todos ficaram surpresos com aquele surto de defensor feminista que Carlos havia cometido. Sim, pois ele sequer falava sobre a sua esposa. Estava agora demonstrando todo seu lado neandertal e primitivo de homem. Um lado que todo homem que é homem tem aflorado desde os primeiros anos de idade quando a mãe leva o filhinho nas festas e mostra pras amigas:
- Filhiiiinho! Onde está o piu-piu?
E a criança aponta para seu órgão como se fosse uma relíquia. E passa a vida achando que aquilo é normal, que ter um piu-piu e mostrar a todos a sua relíquia, é algo que tem de ser feito.
Então, Carlos parou por alguns segundos e suspirou logo após:
- Apesar de que aquela compacta. Ah! Aquela eu trocaria por qualquer mulher no mundo.
Lembrou-se então, da única vez na vida pós-casamento que havia saído só, sem a companhia da excelentíssima. Foram ele e seu amigo de infância a uma festa, na casa de um ex-colega de faculdade. Um que morava na cidade baixa. Tinha trinta e um anos, e vivia uma vida adolescente. Fazia festa de terça a domingo, e alimentava-se de paixões rápidas e de sexo casual. Conhecia a garota naquela noite, apaixonava-se e terminava acordando no outro dia com uma desconhecida ao seu lado na cama.
Carlos foi à festa, relutante, mas foi. Estava mesmo precisando sair, esfriar a cabeça. Suas gêmeas haviam nascido há pouco. Não dormia direito. Não tinha mais vida social alguma. Então ligou para esposa e disse que ia para casa de Edu tomar algumas cervejas e se divertir jogando dominó ou algum esporte desses chatos os quais mulheres não se interessariam, nem agüentariam ver uma partida sequer, e foi a festa.
Chegando lá estava encabulado, mas foi soltando-se aos poucos. Bebericava algo aqui, outro algo acolá, e quando percebeu estava se sentindo outra pessoa. Queria sair da rotina, apaixonar-se uma vez só na vida por uma noite. Fazer sexo casual. Mas trairia sua amada esposa, a qual tinha certeza que nunca fez nada pra ele. Mas ele precisava daquilo, tinha que fazer. Precisava sentir o gosto da tentação. Foi quando ele a viu. Ali parada no canto, com um copo de cerveja na mão, cabelos na altura dos ombros, ondulados, olhos esverdeados, e cheiro de maçã do amor. Não podia acreditar no que estava vendo, aquela mulher. Compacta. Pequeníssima. Arrancando suspiros dele, o idolatrador das voluptuosas.
Aproximou-se, e começou uma conversa simpática. Ela estava com mais umas amigas conversando numa rodinha, como fazem as mulheres sempre.
- Olá. Tudo bem?
- Aham.
Aham. Aquilo não era um bom sinal, quando as coisas começam apenas com um aham, tendem a não dar certo. Pensou que não conseguiria nada, pois estava enferrujado nesse assunto de conversar com outras mulheres, mas seguiu em frente.
- Então. Conheces o Pedro de onde?
- Ele trabalhou comigo durante algum tempo.
- Pô, bacana. Quer mais uma ceva? Eu vou ali buscar uma pra mim.
- Claro. Por que não.
Carlos foi até a geladeira pegou as cervejas e ao se virar encontra Pedro.
- E aí cara! Como ta a fessta pra txi?
O nível de embriagues de Pedro estava em um grau muito alto já, então Carlos disse apenas, legal.
Voltou para a rodinha, deu a cerveja para a garota. Afinal qual o nome dela? Como foi estúpido esqueceu de se apresentar.
- Bom, aqui está sua cerveja!
- Obrigada.
- Desculpa. Não me apresentei. Carlos.
- Prazer. Amália.
Amália. Aquele nome soou como sinos bimbalhantes no natal. Amália.
Carlos então investiu muito naquela moça, mas muito mesmo. Mas naquela noite saiu da festa apenas com o telefone dela, o nome, e provavelmente uma ressaca horrível no outro dia. Mas não desistiria dela, só trairia sua esposa com uma mulher. E essa mulher era Amália.
Será que Carlos ligou para ela? Como foi seu dia pós-festa? Teria Amália gostado de Carlos? No próximo e imperdível. Casos e acasos.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Casos e acasos - III
Carlos era considerado uma pessoa acima da média social, era bonito, tinha um biótipo forte, olhos verde-mel e certo potencial monetário. Vivia em um bairro nobre de Porto Alegre com sua esposa e duas filhas, e levava uma vida tranqüila até aquele dia.
Naquela manhã foi ao escritório como de costume, Carlos era um grande analista financeiro reconhecido pelos maiores empresários e apostadores do estado. Fez o rotineiro, acordou, tomou café, levou as filhas à escola e foi rumo à Avenida Ipiranga, onde se localizava seu modesto escritório.
- Bom dia, Astolfo!
Astolfo era o porteiro de seu prédio.
- Bom dia Seu Carlos.
Carlos chama o elevador enquanto Astolfo chama sua atenção.
- Tem um homem esperando o senhor aí. O senhor sabe muito bem que eu não deixo ninguém passar, mas ele disse que era muito urgente e me convenceu.
- Um homem? Tudo bem Astolfo, tudo bem. Eu resolvo isso.
O elevador chega. Carlos entra indica o seu andar, e parte pensativo.
- Quem seria este homem? Será alguém da polícia Federal? Será algo importante? Pode ser aquele meu primo que mora longe e vem a cada ano pedir dinheiro, ele sempre conta a mesma história e leva alguns de meus dobrões, humpf! Murmurou Carlos.
O elevador estava chegando à luz indicada, Carlos da mais uma olhada no espelho ajeita a gravata bordo, a camisa impecavelmente branca, alisa as calças engomadas. O elevador chega ao destino e Carlos logo se depara com um homem de barba mal feita, camisa entreaberta até o peito, calça jeans surrada.
Apesar de achar o homem um tanto estranho Carlos inicia cordialmente o diálogo:
- Bom dia, procuras por quem?
Quando queria era muito simpático e correto em suas palavras, podendo mudar rapidamente seu vocabulário e humor conforme a situação exigia, mas aquele dia postou-se inútil diante daquela voz grossa e ameaçadora.
- Eu sei de toda a história, e se não quiser que todas as pessoas dessa tua classezinha nojenta e imponente saibam. Você vai dançar conforme a minha música.
Se um dia quiser fazer com que alguém fique a sua mercê, diga exatamente isso, "Eu sei de tudo", todos têm segredos e todos temem seus segredos, alguns poucos outros muito.
E Carlos se enquadrava no grupo dos que temiam muito, ele guardava algo terrível, que poderia devastar sua vida mais rapidamente que um daqueles furacões americanos que arrastam vacas e tratores como se fosse areia.
- Tudo bem é só dizer o que eu preciso fazer. Qualquer coisa. De quanto tu precisa?
O tom da voz de Carlos era tremulo e desconfiado. Arrogantemente aquele homem, que mais parecia uma mistura de Schwarzenegger com voz de Cid Moreira, respondeu:
- Quanto? Muito mais do que você pode conseguir, por isso não quero dinheiro, existem coisas das qual o dinheiro não pode pagar pela satisfação.
Agora Carlos estava apreensivo de verdade, sentiu que não havia engano algum ali, e que realmente aquele homem sabia de sua história.
- É sobre a sonegação? Eu pago tudo que devo.
- Sonegação? Bem, dessa eu não sabia, mas não vou usá-la.
- Então sobre o que é?!
Nesse momento Carlos começava a ficar com um medo fora do normal, e mal sabia que as coisas ficariam piores a partir daquela revelação.
- É sobre seu filho.
Silêncio...
E agora quem será o filho de Carlos? Quem será o misterioso homem de voz grossa? Poderia ele realmente destruir a vida de Carlos? No próximo Casos e acasos!!!
segunda-feira, 3 de março de 2008
Casos e acasos - Segundo capítulo.
Quando chegou ao templo mor das consagrações jogatinais, havia lá pendurada na porta de metal reluzente uma folha de caderno em letras garrafais:
"Interditado por tempo indeterminado."
As palavras pareciam rimas demoníacas para aqueles olhos esverdeados que começavam a verter água.
- Minha única chance, a única chance, por que? Por que meu Deus? Logo hoje, logo agora, logo comigo.
Sentou-se magistralmente ao meio-fio, com seu vestido curtíssimo cor de sol e ficou lamentando-se, pois a oportunidade de sua vida mudar estava interditada, quem em sã consciência interdita a vida de alguém, isso é abominável, por Deus.
Amália então decidiu levantar-se, montar em sua bicicleta e retornar as vielas sinuosas.
- Olá Dona Carlinha, voltei para buscar o Bernardo.
- Nossa por que demorou tan..., que foi Amália? O que fizeram contigo?
- Nada Dona Carlinha, nada, só interditaram minha vida.
- Como assim, interditaram?
- Eu explico em outro momento, agora só quero descansar.
Descansar era o que Amália mais teria que fazer, ao chegar la estava seu ébrio marido jogado como uma saca de batatas podres no sofá.
Amália o deixou lá junto as suas garrafas de cachaça, e foi dormir com seu filho.
Exatamente às 7:00 o despertador avisava que mais um dia iniciará para Amália. Pôs-se em pé preparou o café para o filho, levou-o a escola e voltou para os afazeres domésticos.
Quando estava estendendo suas roupas uma voz tenra penetrou em seu aparelho auricular, deixando Amália muito, mas muito surpresa.
O que terá dito esta voz? Seria ela alguém com más intenções? Teria ela desferido algo de baixo escalão? O terceiro vem aí!!!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Casos e acasos - Primeiro capítulo.
Aah! Amália, uma mulher divina com lábios carnudos, cabelos longos e negros, olhos levemente esverdeados, coxas grossas e panturrilhas definidas, Aah! Amália.
Amélia sim era mulher de verdade, mas Amália era uma genericamente de verdade, uma mulher de verdade que trabalhava em casa, cuidava de seus dois filhos, e de um marido nada amoroso. Assim como tantas outras Amálias e Amélias existentes, mas Amália descobriu que tinha algo a mais que as outras tantas, sorte.
Imagine agora uma mulher linda e sortuda, com um infortúnio amoroso, pobre Amália.
Certa vez Amália ganhou na loteria, não havia sido muito, mas ajudaria nas despesas de casa, e como ajudaria, pois ela fazia trabalhos para fora, e seu marido era desempregado. Estava ela sentada em sua simples casa lendo o jornal e conferindo os números sorteados:
Lia mentalmente e conferia oralmente:
- 7?
-7.
-10?
-10.
- 21?
- 21.
-35?
-35, não acredito fui sorteada!!!
Então Amália saiu em disparate para pegar seu simples e suado prêmio, saiu correndo, pôs seu filho embaixo do braço, e pediu para a vizinha ranzinza cuidá-lo.
- A senhora poderia cuidar do Bernardo pra mim? Não tem ninguém em casa.
- Onde está o seu marido?
- Não sei, e nem tenho tempo para procurar aquele traste, a lotérica fecha às 18 horas e agora são, conferindo ao relógio, meu Deus são dez para seis, obrigado Dona Carlinha, volto rápido.
Pegou sua bicicleta e saiu feito relâmpago pelas vielas do seu bairro, ao chegar na lotérica o pior havia acontecido...
O que será que houve? O que se sucedeu neste breve momento? Confira na próxima edição de Casos e acasos.