Por quê? Por que ser assim tão insensível? O que ela me fez para que eu levasse aquele ato impiedoso ao extremo? Ela não merece isso. Não merece um tipo como eu. Tomei minha decisão, agora nem milhares de homens munidos de lanças cintilantes serão capazes de me deter.
Talvez se eu não tivesse ligado pra ela aquele dia. Não. Eu fiz o certo. Não é o certo aproveitar todos os momentos de nossa vida como se fosse o último? Então eu fiz certo.
Certa feita Carlos cometeu o maior crime de sua vida. E não foi contra ninguém, foi contra algo. Sua moral. A única coisa que prezava. A ponto de querer suicidar-se como faziam, e até hoje existem os que fazem, os guerreiros japoneses. Cometer o harakiri. Deveria pegar aquela caneta prateada e enfiar no fundo de seu peito até seu último suspiro exalar pelas narinas.
Agora ela saberia de tudo. Estava à mercê de um vigarista qualquer que descobriu seu passado negro. Como podem as pessoas fazer isso com os outros. Iria se tornar um vigarista também. Ah sim iria.
Mas deixaria isso e o harakiri para depois, precisava no momento se concentrar em como consertar a situação, pois estava certo que não tinha vocação para ser vigarista e muito menos coragem de cometer suicídio com uma caneta.
- Alo?!
- A-alo... Quem está falando?
- Com quem tu quer falar?!
Era ele. Aquela voz não enganava. Aquele Cid Moreira com sangue latino. Tentou forçar a voz para que parecesse mais agressivo.
- Aqui é o Carlos. Quero resolver meu assunto contigo.
- Então quer dizer que o passado pesou?
- ... Pois é.
Agora lembrara de toda história e se tornou vulnerável novamente. Malditos vigaristas.
- Então é o seguinte. Amália ganhou na loteria, e ficou sabendo disso há pouco tempo.
- Nossa, que bom. Isso significa que eu não vou precisar pagar pensão.
Não aquela piadinha não fora boa naquela ocasião.
- Olha isso eu não sei, vai te entender com ela. Posso continuar?
- Claro. Claro.
- Eu contei a ela que havia ganhado na loteria há pouco. Mas tem um grande problema. Ela perdeu seu bilhete.
- Bom, mas e o que eu vou fazer nesse caso?
- É simples vai pagar o prêmio a ela.
- COMO ASSIM?! Eu não tenho dinheiro nem para pagar minhas contas. Como pagarei um prêmio de loteria a ela?
- Isso não é problema meu. Quem tem o passado sujo aqui é tu. Te vira.
- Olha aqui seu canalha. Não adianta tu querer...
Tarde de mais. O canalha havia desligado o telefone na sua cara. Carlos ficou praguejando e rogando as mais sujas pragas para aquele infeliz. E agora o que faria? Como resolver aquele assunto? Claro! Iria contar tudo para sua esposa. Assim o canalha ficaria sem saída. Não teria segredo algum. E afinal aquilo fora há tantos anos. Ela entenderia a situação. Ainda mais se tratando de um caso como este.
Chegando em casa, tomou um banho. Abriu uma garrafa de conhaque estocada há muitos anos. Bebericou alguns goles daquele liquido amargo. Carlos não bebia, mas aquela situação o obrigava, precisava relaxar. Ficar mais solto. E então chamou a esposa.
- Querida, venha até aqui um minuto precisamos ter uma conversa.
Ela desceu as escadas enrolada em um chambre vermelho-diabo. Cabelos longos e pretos. Pernas roliças. Não era grande, mas Carlos a venerava como a uma Deusa. Era do tipo de mulher que ele não imaginara casar. Mas que o completava. E como completava.
- O que foi amor? Está com uma carinha tão preocupada.
Passou a mão levemente sobre o rosto de Carlos. E com aquele gesto desmoronou a muralha que Carlos havia construído.
- É, na verdade eu tenho algo para te contar.
Mas como? Como contar aquela malevolência para Claudinha? Contar ou não contar, eis a questão. No próximo casos e acasos.
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